Kyrie

Destacado

Essas ataduras na alma
fazem eu ler a vida
com alteridade.

somos todos miséria
somos todos ternura
amor versus o lixo

incólumes, nem tanto
é de clemência
que se fala os outdoors

uma mentira fresca
com cheiro inebriante
carmim melancolia

a alma era um hímen
homem algum pode compreender
o tempo é luz que arde e transforma

aprendi a ser minha
a chuva é solidão
imbricada feito costura.

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Cultivo

Ainda era escuro.
na penumbra ecoava vozes de clamor
queria mesmo é abrir meu peito tirar os espinhos, e ficar somente com as flores amarelas semeadas nele.

mas esqueci minhas ferramentas, escapou-me a habilidade de cultivar alegrias.

espero ano que vem.

vou começar a preparar a terra boa cá dentro de mim – porque do pó viestes, e para o pó deve voltar – já não temo os gritos, tenho o costume da reza antiga.

meus verdadeiros amigos, educarão seus olhos a cuidar de mim
(memória póstuma em desejo).
nesta penumbra, ainda sinto medo e esperança.

creio que são minhas entranhas, sendo escarneadas pelo desvelo do tempo inoportuno das tempestades.

roseiral em dolores

o senhor do roseiral,
hoje não cantou sua prece.
escondeu os olhos, como castigo
numa despedida eterna.

hoje o senhor do roseiral,
não alimentou os passarinhos,
não saudou as criancinhas,
ele chorou dolorosamente.

hoje o senhor do roseiral,
esqueceu de aquecer o caminho,
deixou de sorrir para as pessoas,
não tocou a viola e emudeceu seu cantar.

hoje o roseiral está cinza!
rastro fúnebre, sem piedade,
somente ferida e banho frio.
há dias, que sou o senhor do roseiral!

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recomeços

o despertar da cidade
passos frenéticos,
coletivos lotados
mal humor misturado com bom dia
despertadores pausados em mais cinco minutos
faróis, buzinas, medo e arrisca.
este é o preço de viver.
ainda há pássaros urbanos te acordando, basta se envolver.

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Hortência Novais

Hortência Novais