Próxima estação

Você me dá saudade

de fim de tarde!

dizia ela entre uma estação e outra

ainda que fora encontrar

com a costureira

não sabia tecer saudades

tarde são híbridas

nem noite, nem dia

apenas tardes

ele se descobriu

mal revelou e já celebravam

saudades de fim de tarde

estamos esperando o outono.

reza pressa, prece lenta.

saudade.

inusitado

Carregava uns apetrechos

e descortinava sorrisos

uma verdadeira casa dentro de si

Convite inusitado

fala seu nome com alegria

Quem era.

Contou todos os irmãos

E ele era dela e ela dele.

entre o beijo e o sorriso

irrecusável desejo

cor da flor de maracujá.

Acreditar

Salvei as grotas

Aguei a simplicidade

tenho preferido as manhãs.

Todas as noites eu tenho saudade

mas aguei a simplicidade.

com as mãos descobri a felicidade

é como fazedor de sonhos

não esses de fábricas

são tessituras terrestres

[dizem que somos de lá]

por aqui cabe seu bem-querer

temia o improvável

acredito, solidão, ser

fotografias do tempo da vó

acho que já escrevi sobre amor

É, eu vivo ele.

Sou ele, dele, nele.

Ponto final, você me acolhe.

Sobre levezas

Por entre as frestas da janela

Sussurrava preces de um bom dia

Ferve leite, passa um café, naco de queijo

Meu alívio é saber que tenho suas preces

De resto, o mundo ainda nos sucumbe com suas asperezas.

Seu corpo uma leveza perfumosa, suas palavras maturidade sagaz

Me dissera sobre meninos sensíveis, e me abraça como coberta em noite de outono.

Ouço choro de liberdade, na verdade um cancioneiro de descobertas. Lágrimas falam muito de liberdade, sabiam!?

Hoje minha cabeça não está boa, deve ser a intensidade das coisas.

Calma, existem as frestas nas janelas e hoje é domingo!

Tudo isso pra contar sobre a sua leveza.

Minha extrema sensibilidade e sua precisa exatidão fazem festa!

todos os dias

eu ando me esquivando da morte

fiz juras e sortes

mendiguei tempo

sou dona do meu desejo

ensejo de dias melhores

boca arde e torpe

é o meu rasgar

dança minh’alma serena

cantigas que me fazem sonhar

boca arde e foge

sorrisos de tempos em tempos

minha mentira é viver

todos os dias te leio nos jornais.

Mandacaru

Minh’alma ressequida

Velho costume de costurar

desejos molhadas em suas barras.

Flor que murcha tem serventia

Ornamenta meu pensar.

Sem água nem reza

Costume tolo de olhar pros céus

Infortúnio, querer-te aqui

Seu corpo é feito de mentiras

Sua distância é a mais bela aproximação

Meus olhos grudaram no meu desejo

Por agora sou meu.

Sou mandacaru na ressequida alma estradeira

te vejo por lá.

Inté breve.

In

Perturba em meu peito

a amarga sorte

nem morte, nem desaviso

adormece em meus pulmões

um ar cor cinza

fingidos e menos palatáveis

é seu desamor

infortúnio viver rezando

preces feitas e calor

é um sertão ressequido

em frestas desse chão

que enterra minha morte.

Escafandro

Foi rezar e vestiu seu escafandro
Respiro, lugar e prece
Dos episódios dominicais
Os sorrisos vindo do fundo da sala
É o que mais se assemelhava com uma infância de afagos
Nem perto, nem longe
Vestido com o escafandro cruzou a sala
Rumo um isquêmico coração
são preces vespertinas que não nos deixam esquecer quem somos.

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próxima estação

tilinta nos trilhos a ida,

uma canção qualquer

na caixa rouca

e anunciam a próxima estação.

novo tempo – pra quem?

já me encontrei com minhas vontades

meias, inteiras, nunca fui pela metade.

o sol espreita pela janela embaçada,

uma segunda-feira, terceira ou quarta chance

de viver e vir a ser.

há passantes desgovernados, bocejos irritados,

telas de celulares e fake news.

olhares tortuosos, cansaço nessa pátria mãe

nada gentil do banco azul anil, bolsas

abarrotadas de tudo ou nada e a não ser a

fome de viver mais um dia.

no trilho oposto, aposto da próxima estação – desci.

a vida entrou em meu vagão.

next station, my bro!

Blue & bule

era às 16h

dava pra ouvir deboches e despautérios.

aprumei-me em preparar um bule com água,

passei um café, daqueles fraquinhos.

deitei-me na rede e sentia a brisa fresca

desajeitada respinguei café na minha camisa azul.

entretida com o movimento e alvoroço de rosa e azul danei a observar.

havia os sem fins do não-diálogo entre

o que podiam, os que não sentiam, os que não criam e os não entendiam.

lamuriosos.

dona Dolores gritou: – Cada um sabe de si! Amem-se

e no fim rolou o beijo mais apaixonado entre

o deus escreveu no livro e o de shorts cavado

tocando Like a Virgen na voz de Madonna ao fundo.

E eu adormeci sorrindo com meu blue.

 

Sufrágio

compadecia e observava na sala

o retorno do sorriso torpe em seu rosto

nem quisera ter encontrado em você

o bem querer!

sufrágio de ventos nesta tarde

prefiro o outono a este escaldo verão.

invoquei as deusas, cantei baixinho

só para que a alegria não me deixe

tão louca quanto já nasci.

parece que vou morrer

ou já morri.

Kyrie

Essas ataduras na alma
fazem eu ler a vida
com alteridade.

somos todos miséria
somos todos ternura
amor versus o lixo

incólumes, nem tanto
é de clemência
que se fala os outdoors

uma mentira fresca
com cheiro inebriante
carmim melancolia

a alma era um hímen
homem algum pode compreender
o tempo é luz que arde e transforma

aprendi a ser minha
a chuva é solidão
imbricada feito costura.

Cultivo

Ainda era escuro.
na penumbra ecoava vozes de clamor
queria mesmo é abrir meu peito tirar os espinhos, e ficar somente com as flores amarelas semeadas nele.

mas esqueci minhas ferramentas, escapou-me a habilidade de cultivar alegrias.

espero ano que vem.

vou começar a preparar a terra boa cá dentro de mim – porque do pó viestes, e para o pó deve voltar – já não temo os gritos, tenho o costume da reza antiga.

meus verdadeiros amigos, educarão seus olhos a cuidar de mim
(memória póstuma em desejo).
nesta penumbra, ainda sinto medo e esperança.

creio que são minhas entranhas, sendo escarneadas pelo desvelo do tempo inoportuno das tempestades.

roseiral em dolores

o senhor do roseiral,
hoje não cantou sua prece.
escondeu os olhos, como castigo
numa despedida eterna.

hoje o senhor do roseiral,
não alimentou os passarinhos,
não saudou as criancinhas,
ele chorou dolorosamente.

hoje o senhor do roseiral,
esqueceu de aquecer o caminho,
deixou de sorrir para as pessoas,
não tocou a viola e emudeceu seu cantar.

hoje o roseiral está cinza!
rastro fúnebre, sem piedade,
somente ferida e banho frio.
há dias, que sou o senhor do roseiral!

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madrugadas

O cuidado com quem a gente ama está nas pequeninas coisas. Mesmo as mais insignificantes. No olhar na mesma direção, mesmo com as diferenças, pois há cumplicidade no reconhecer que a outra pessoa faz parte da minha vida. É preciso delicadeza pra reconhecer que a outra pessoa tem defeitos, mas tem sentimentos belíssimos e que sou capaz de respeita-la e solidarizar-me na caminhada mão com mão, coração em sintonia. O amor, sim ele é livre e por ser livre que é bonito, pois resignifica numa dança aconchegante de bem-querer. O amor é comunicativo, é olhar que envolve e delícia de abraço. Neste amor a correção é reveladora do eu capaz de coisas novíssimas, que gera vida-força.
Que haja amores cantantes e dançantes que rompam com a lógica do amor de brincadeirinha que temos tanto aí, aqui, ali e acolá.

foto: Hortência Novais

foto: Hortência Novais